Romantização da Dor nas Redes: Expor Sofrimento Ajuda ou Aprofunda o Mal-Estar Emocional?
- Alexandre Ferreira
- 10 de set.
- 2 min de leitura
Nos últimos anos, a exposição da dor nas redes sociais cresceu, levantando questões sobre a romantização do sofrimento. Essa prática pode oferecer apoio, mas também gerar gatilhos emocionais, especialmente entre jovens. Com o Setembro Amarelo, a reflexão sobre a saúde mental se torna ainda mais urgente.

Nos últimos anos, um fenômeno nas redes sociais tem chamado a atenção: a exposição da dor através de vídeos e postagens, frequentemente acompanhados de músicas emotivas, legendas impactantes e filtros estéticos. Usuários compartilham suas experiências de sofrimento, seja um término de namoro, um diagnóstico de doença ou um luto. No entanto, surge a questão: essa romantização do sofrimento contribui para a saúde mental ou pode se tornar um gatilho para quem assiste?
A Exposição da Dor nas Redes Sociais
Para o psicólogo e professor do curso de Psicologia da Estácio, Thiago Lacerda, é preciso ter cautela ao abordar esse tema. Ele observa que as redes sociais transformaram tudo em conteúdo, incluindo a dor. “Isso pode gerar uma falsa sensação de acolhimento imediato, mas também reforça uma dinâmica de espetáculo do sofrimento, que muitas vezes impede a elaboração saudável dessas emoções”, explica.
As Duas Faces da Vulnerabilidade
Lacerda aponta que expor a vulnerabilidade pode ter aspectos positivos e negativos. Por um lado, compartilhar sentimentos pode ajudar a reduzir o isolamento e promover identificação. “Há quem encontre apoio real em comentários solidários e em mensagens privadas de pessoas que passaram por situações semelhantes”, afirma. Por outro lado, ele alerta que a validação virtual é efêmera. “Quando o alívio depende exclusivamente de curtidas e visualizações, o risco de frustração aumenta, especialmente se a pessoa não recebe a atenção esperada, o que pode aprofundar o sofrimento”, completa.
O Impacto no Público
Esse tipo de conteúdo pode servir tanto como um ponto de conexão quanto como um gatilho emocional. Lacerda explica que pessoas em fragilidade emocional podem se comparar com a dor exposta e sentir que suas próprias vidas são ainda mais solitárias ou sem sentido. O risco é maior entre adolescentes e jovens, que passam mais tempo nas redes e são mais suscetíveis à influência social.
A Relevância do Setembro Amarelo
No contexto do Setembro Amarelo, campanha dedicada à prevenção do suicídio, a discussão sobre a romantização do sofrimento se torna ainda mais pertinente. Essa abordagem pode banalizar o sofrimento psíquico ou normalizar a ideia de que a dor precisa ser exibida para ser validada. “É fundamental lembrar que sentir tristeza, luto ou frustração faz parte da vida, mas procurar ajuda profissional é o caminho mais saudável e seguro para enfrentar momentos difíceis”, ressalta Lacerda.
Reflexão e Cuidado ao Compartilhar
O especialista sugere que, antes de publicar um momento de vulnerabilidade, cada pessoa deve refletir se isso realmente ajudará ou se está buscando validação imediata. Além disso, consumir esse tipo de conteúdo requer cautela. Se um vídeo provoca incômodo ou intensifica a angústia, o ideal é limitar a exposição e buscar apoio em conversas reais. “Não se trata de censurar emoções, mas de lembrar que a vida vai além das redes sociais. O acolhimento mais eficaz, na maioria das vezes, acontece fora das telas”, conclui.





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