Barreiras Invisíveis: O Medo dos Homens em Buscar Ajuda Psicológica e o Preconceito que Persiste
- Alexandre Ferreira
- 30 de out.
- 3 min de leitura
O medo de buscar ajuda psicológica é uma realidade para muitos homens, como revela o depoimento de João, que enfrenta angústias e preconceitos. Apesar do aumento da conscientização sobre saúde mental, barreiras internas e sociais ainda dificultam o acesso à terapia.

Por que os homens têm medo de procurar ajuda psicológica?
João Lisboa Lima, de 37 anos, compartilha sua experiência: "Sempre fui o tipo de homem que guarda tudo pra si. Aqui na Madre Deus, a gente cresce ouvindo que homem tem que aguentar calado, que problema se resolve tomando uma cerveja ou indo pra rua conversar. Só que chega uma hora que o peso fica grande demais." Ele descreve noites mal dormidas, cansaço constante e uma angústia inexplicável. Embora tenha considerado procurar um psicólogo, o medo do julgamento o impede: "E se acharem que eu tô ficando doido? Ou que sou fraco? Tenho vergonha de comentar isso com meus amigos." João reconhece a necessidade de ajuda, mas luta contra suas próprias barreiras mentais. Para compartilhar seu relato, pediu para usar um nome fictício, evidenciando o preconceito que enfrenta.
Esse depoimento reflete a realidade de muitos homens que, apesar de reconhecerem a necessidade de apoio, hesitam em buscar ajuda profissional. Mesmo com a crescente divulgação sobre saúde mental nas redes sociais e na mídia, o medo, a vergonha e o preconceito ainda dificultam a procura por tratamento psicológico.
Estatísticas alarmantes
Os efeitos desse silêncio se refletem nas estatísticas. Em 2024, o Maranhão registrou 3.997 afastamentos de trabalhadores devido a transtornos mentais, como ansiedade e depressão, conforme dados do Ministério da Previdência Social. No Brasil, foram 472.328 licenças médicas concedidas por motivos semelhantes, representando um aumento de 68% em relação ao ano anterior. Esses números evidenciam que o sofrimento mental está crescendo, mas o acesso a ajuda profissional ainda enfrenta barreiras significativas.
Barreiras à busca por ajuda
Para o psicólogo Jediael Abreu, a decisão de buscar ajuda não está apenas relacionada ao acesso à informação. "Ter mais conteúdo disponível não significa que a pessoa vai iniciar tratamento. Existem barreiras internas, sociais e estruturais que freiam a procura", explica. Entre essas barreiras, a crença de que se deve "resolver sozinho" é a mais comum. Pesquisas internacionais mostram que, mesmo ao reconhecer a necessidade de ajuda, cerca de 64% das pessoas preferem lidar com os problemas sozinhas. Além disso, muitos acreditam que seu sofrimento não é grave o suficiente para justificar a terapia, especialmente em casos leves e moderados.
O impacto do estigma
O estigma é um obstáculo significativo. Muitos temem ser rotulados, que suas condições se tornem públicas ou que enfrentem consequências no trabalho ou na escola. Segundo Abreu, o impacto do estigma é mais intenso entre homens, jovens e grupos minoritários. "O estigma importa, mas não é o único freio. Crenças pessoais e barreiras práticas, como custo e tempo de espera, podem pesar ainda mais", afirma.
Influências culturais e sociais
Fatores culturais e sociais também moldam o comportamento em relação à busca por ajuda. Normas de masculinidade que valorizam a autossuficiência tendem a reduzir a procura entre homens, enquanto crenças familiares e religiosas podem direcionar as pessoas para apoio moral ou espiritual, em vez de tratamento profissional. Ambientes de trabalho e escolares que não são acolhedores também desestimulam a adesão à psicoterapia.
Caminhos para a mudança
"É preciso ir além da informação. Reduzir o estigma, facilitar o acesso, adaptar o cuidado e garantir experiências terapêuticas claras e confidenciais são passos fundamentais", destaca Abreu. Ele defende que a psicoterapia deve ser vista como um cuidado essencial, acessível no SUS, nas escolas, no ambiente de trabalho e também online. "Quando a terapia é considerada parte da vida, e não um sinal de fraqueza, o tratamento deixa de ser tabu e se torna um caminho de cura", conclui o psicólogo.





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